Misoginia com flores: o que pode haver por trás do amor romântico?

No último texto, Homem, misoginia, poder e busca pelo retrocesso. Por que estamos assim?, discuti alguns dos fatores que têm contribuído para o aumento da misoginia. Neste, o foco estará exclusivamente em nós, mulheres. Finalizei o texto acima com uma pergunta no ar: como sair da armadilha em que nos colocamos quando, por acreditar que somos seres superiores ao homem, assumimos a missão de suportar – aqui no duplo sentido de dar suporte e ao mesmo tempo aguentar – um homem que nos desrespeita?

+ Masculinidades, no plural. Estamos prontos?

Cada vida é uma história rica de nuances e especificidades, portanto preciso falar de mulheres em geral. Somos criadas para ser o esteio da família. O suporte, a união, a responsável. Dependendo da cultura da região onde crescemos, ainda adquirimos modelos que nos guiam que vão desde a inquebrável e corajosa heroína à melodramática e sofredora vítima que suporta tudo com o coração aberto.

Antes de continuar, preciso esclarecer que não estou negando nenhuma das duas condições – a de heroína ou a de vítima –, mas explorando propositalmente estereótipos para notarmos, através do exagero, as nuances que estes carregam e que podem nos conduzir sem percebermos.

Vou começar a responder à pergunta que norteia este texto a partir da minha própria experiência e das pesquisas que venho fazendo há várias décadas: a primeira ação a tomar é a busca pelo autoconhecimento. Entender os sentimentos que guiam nossos pensamentos e atos nos traz um domínio saudável sobre nossa vida. O autoconhecimento se busca profissionalmente. Lamento, mas o nível de qualidade da resposta é superior quando recorremos a profissionais preparados para nos auxiliar no caminho de autodescoberta. Não é fácil, não é simples, é dolorido – se fosse muito confortável, eu desconfiaria… –, mas, como sempre digo: o vale de desgraça que precisaremos atravessar é menos sinistro do que nossa mente nos faz supor. E depois… ah!, depois, vem um equilíbrio e capacidade de administrar a vida que torna tudo mais leve e firme. O autoconhecimento nos dá segurança para sermos esteio de nós mesmas.

+ Poder Para. Adormeceu ou morreu?

Com autoconhecimento entendemos, por exemplo, que muitas de nós se consideram mulher de verdade desde que estejam numa relação romântica. Ter alguém dentro de uma relação amorosa é sinônimo de realização e completude. Uma das bases para essa crença é o pensamento binário, tão bem socado nas nossas mentes que acreditamos realmente que somos incompletas. As gerações mais velhas pensavam na completude a partir da diferença – que não significa o mesmo que diversidade, pelo contrário: cada um vive no seu quadrado. Vale lembrar que a valorização da diferença relacionada aos papeis sexuais é um dos instrumentos que naturaliza a separação, que permite a hierarquização e o poder sobre. É aquela que sustenta a ideia de que cada sexo tem um papel social a desempenhar e, quando todos desempenham adequadamente – ou seja, ninguém ousa sair do seu quadrado –, a sociedade vive mais harmoniosamente. Pela crença da diferença buscamos o oposto, a outra metade que nos completa.

As gerações mais novas evoluíram e partiram para resolver a crença da incompletude através do companheirismo como valor fundamental na relação amorosa – escrevi sobre isso nos textos de 2013 em diante (arquivos à disposição neste blog). Na busca pelo Amor Romântico-Companheiro, há aqueles que buscam seus iguais – quase uma busca pelo espelho –, enquanto outros são mais abertos às diferenças dentro de parâmetros limitados. Todas as gerações continuam, cada uma à sua maneira, na busca por essa plenitude (ou completude) externa.

+ Masculinidade e (é) poder

É óbvio que estar numa relação amorosa que é companheira nos deixa felizes. Aliás, que viver a dois, especialmente do jeito que o mundo é posto, é muito bom. Meu ponto não é esse. Meu ponto é vestirmos a fantasia de heroína ou de vítima e suportarmos uma relação que nos machuca, nos desrespeita e não nos dá amor no sentido mais puro, somente pela ideia de que “todo casamento/relação é assim mesmo”, “homem é assim mesmo; precisamos ver o lado bom das coisas…”, “é melhor estar acompanhada do que só”, “a vida da mulher sozinha é triste e solitária”, “a mulher sozinha fica chata e amargurada”. Alguma dessas crenças fez sentido para você? Já ouviu? Eu já. E, sim, fez sentido. Várias delas. Foi um trabalho árduo entender que eram crenças que infelizmente dobravam minha autoestima, minhas vontades e limitavam meus horizontes.

Saber-se plena sem o outro e sentir que está tudo bem, mesmo que às vezes nos entristeça não ter um grande amor, é restaurador. Partir desse lugar de empoderamento – e é neste sentido que uso esse termo, de dentro para fora – para decidir compartilhar a vida numa relação amorosa é o que faz toda a diferença nas negociações que a vida a dois exige. Não há prepotência nem ameaças – “vou partir!”. Há consciência de que estamos investindo num amor que nos faz bem e que, quando ele deixar de cumprir o seu papel – nos fazer bem –, tristes, mas firmes e completas, podemos partir, se assim o decidirmos.

+ Relacionamento exige troca porque é da terra. O amor não.

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