Continuo minha reflexão sobre o texto Homem, misoginia, poder e busca pelo retrocesso. Por que estamos assim?, que publiquei em maio. Neste texto vou falar sobre a paternidade. Várias leitoras e leitores sabem que a minha pesquisa no doutorado é sobre as masculinidades – especificamente sobre um conceito, o de caring masculinities, ou as masculinidades cuidadoras, em uma das suas traduções. Esse conceito trata, entre vários aspectos, do tipo de masculinidade que está mais aberto à equidade de gênero, e deve-se a isso o meu interesse. Entender como podemos criar masculinidades mais abertas à equidade, menos competitivas, agressivas e violentas – isto é, que considero mais saudáveis socialmente – é um dos focos do meu trabalho.
+ Homem, misoginia, poder e busca pelo retrocesso. Por que estamos assim?
Ao mergulhar no material produzido até o momento por diversos autores mundo afora, compreendi que o exercício da paternidade pode ser um dos fatores que modificam a construção social da masculinidade hegemônica. Vi isso in loco em 2011 quando entrei em campo com a pesquisa Projeto Homem. Nesse projeto observei, nas cidades do Brasil em que pesquisei, que as crianças estavam promovendo uma mudança gradual e consistente nos homens.
A paternidade, mesmo nos ambientes mais machistas, era um espaço social em que era permitida a emoção, a vulnerabilidade e até atos bobos sem tanto constrangimento – eram motivo de graça e diversão –, ainda que esse relaxamento não impedisse que em outras áreas o machismo continuasse a reinar. Aliás, algo que o machismo faz muito bem é separar o relacionamento com os filhos do relacionamento que se tem com a mulher em um vínculo romântico. E, é claro, muitas mulheres que sofrem relacionamentos abusivos ficam comovidas e encontram nisso um motivo para continuar nesses relacionamentos. Sempre buscando uma luz no fim do túnel, acreditando que por trás de tanta barbárie há um homem bom, que sofreu na infância e que cabe a ela acolher (falo mais disso no texto anterior).
Paralelamente ao movimento atual de aumento da misoginia, vejo no cotidiano em meu entorno mudanças em alguns homens em relação à paternidade. Desde 2011 (período em que comecei a pesquisar esse tema) até uns anos atrás, era valorizado, inclusive midiaticamente, o exercício da paternidade atuante e cuidadora; hoje tenho conversado com homens que são pais e noto, mesmo nos jovens, a ideia de que o cuidado dos filhos é papel da mulher. Alguns deles carregam a ideia de que cabe a eles trazer o dinheiro e que é a mãe que deve fazer o resto. Dividindo, e não unindo.
+ Misoginia com flores: o que pode haver por trás do amor romântico?
Quem perde são todos. A mulher, com a sobrecarga de trabalho do cuidado – a já famosa economia do cuidado, que está sendo avaliada e monitorada globalmente –; o homem, que perde a possibilidade de um contato mais direto com o amor puro de uma criança; e a criança, que perde o contato com um tipo de masculinidade amorosa e cuidadora. Isso sem falar na sociedade, que perde homens menos bélicos. Inevitável não pensar na economia da guerra, que se beneficia com homens mais violentos, assim como aqueles cuja visão de mundo visa em primeiro, em segundo e em terceiro lugar ao lucro, muitas vezes acima do lado humano da vida.
O pensamento do homem mais duro, insensível e agressivo vem se espalhando mesmo sem tomarmos consciência de seu alcance. Cito como exemplos a diminuição de investimentos em programas de DE&I dentro das empresas e comentários como os do fundador da Meta, Mark Zuckerberg, que durante o podcast “The Joe Rogan Experience” criticou a cultura corporativa atual como “culturalmente neutra” e defendeu que celebrar a agressividade traria benefícios.
Promover uma paternidade cuidadora é vital para uma sociedade mais saudável. Cura o homem, cura a sociedade agressiva e dominadora. Uma das coisas mais lindas que tenho tido a oportunidade de presenciar há mais de vinte anos é o exercício de amor que meu companheiro tem pelos seus filhos e, agora, pela nossa neta. Sou testemunha de que amar – isto é, claramente, entregar mais do que receber – é curador, traz plenitude, autoestima e segurança. Uma paternidade cuidadora – entendendo que o cuidar é uma das expressões práticas do amor – ajuda o pai a ser um ser humano mais saudável socialmente; ajuda os filhos a aprenderem a amar cuidando sem gênero envolvido; ajuda a mulher na sua sobrecarga de tarefas, na sua confiança em relação à vida, no seu sentimento de solidão para enfrentar os desafios da vida.



