O comentário mais comum que se ouve quando se anuncia uma viagem para a China é que ela irá nos surpreender. Posso dizer, após quase uma semana nestas terras longínquas: sim, ela surpreende. Iniciando olhando para nós mesmos, quando avaliamos o tamanho do nosso preconceito, mesmo que nos consideremos “cabeça aberta”.
Estávamos esperando as malas no aeroporto de Beijing quando chegaram na esteira as primeiras delas, todas iguais. Na mesma hora disse para meu marido: “Olha as malas! São todas iguais.” Estávamos comentando a falta de escolha do povo chinês, quando reparamos que todas elas tinham a etiqueta “Crew” (tripulação) colada. Mais uma vez na minha vida, ficou evidente o quanto é difícil nos livrarmos dos nossos preconceitos adquiridos e constantemente alimentados pela cultura em que estamos inseridos. Como sempre digo, é um “olhai e vigiai” constante. Valeu ter iniciado assim a viagem para trazer mais consciência e permitir que a China se mostre por si só.
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Já deixamos Beijing e, a caminho de nossa próxima cidade, começo por comentar sobre os jovens. A mistura de fantasia com doses de inocência e um quê de estética de desenho animado, faz dos jovens que andavam pelas ruas mais centrais da cidade um dos pontos que mais me chamou a atenção. Se nossos jovens do ocidente – e praticamente todos nós – estamos quase viciados em redes sociais, a forma como esses jovens chineses o estão me surpreendeu. Há uma produção específica mostrada sem pudor nenhum. Horas em cafés – os mais caros são os mais eleitos – filmando-se, fotografando-se, maquiando-se horas a fio.
Na saída de um café, demos de cara com uma fila longa de jovens esperando para entrar em dois stands da Jellycat, marca de brinquedos premium, que simulavam um café. Pesquisei e verifiquei que é um pop-up experiência da marca em várias cidades como Paris, Londres, NYC e aqui na China. Os jovens da fila – com agendamento prévio via app – escolhiam um brinquedo e a experiência com um bolo de brinquedo. Até aí nada de diferente. Só que, quando chegamos mais perto, notamos que as meninas que serviam o dito bolo fingiam que estavam decorando-o. O cliente ajudava a “montar o bolo”, fazendo movimento com as espátulas no ar, colocando creme chantilly de mentira – como quando fingimos para crianças pequenas que estamos cozinhando com elas. As atendentes cantavam uma música e após diversos aplausos colocavam o tão elaborado bolo numa caixa cheia de laços. Tudo devidamente filmado, claro. Até onde eu encontrei nas minhas pesquisas, a experiência que relatei não acontece nas outras cidades.



Fiquei pensando no custo de tudo isso: as roupas, a despesa com os alimentos que consomem nos cafés. A aceitação e paciência dos garçons dos cafés. O investimento em fingir que se está decorando um bolo de aniversário. Tudo feito de forma tranquila, como se fosse a coisa mais comum do mundo ser adulto e fingir que se faz um bolo no meio de um corredor de um shopping center.
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Pensei o quanto há um empenho genuíno desses jovens por mostrar felicidade, beleza, modernidade e urbanidade. Pensei o quanto eles podem estar se distanciando da realidade e se caracterizando até, pode ser, se perderem nessa própria caricatura. O quanto a fantasia sai do virtual e passa para a vida real.
Sim, eu sei que isso está em todo o mundo. Que todos nós, de alguma maneira, queremos aparentar e buscar aceitação e admiração via redes sociais. Talvez o que tenha me surpreendido tenha sido o grau que isso tomou nessa terra. O quanto o virtual se tornou um local – feliz e seguro (?) – e o quanto nos descolamos do que nos torna mais humanos: as relações em carne e osso. O quanto isso pode nos tornar mais e mais intolerantes com as idiossincrasias que fazem parte de cada um de nós. Vamos lembrar que é no atrito constante que a superfície fica menos áspera.
São jovens, são o futuro da nossa humanidade. Só isso.



