O ano dos meus 60

Fazer 60 anos é um marco para mulheres e homens. Fomos ensinados, pelomenos no Brasil, que 60 é o início oficial da nossa velhice. E o que é a velhice num país que até pouco tempo atrás era preponderantemente jovem? O início do fim. Nas palavras de hoje: o início do cancelamento social.

Nasci e cresci em Lima, no Peru, e talvez esse fato tenha me dado outra narrativa sobre a idade. Diferente do Brasil que se espelha bastante nos Estados Unidos – inclusive na sua estética corporal –, a Lima de minha época de criança e adolescência se espelhava na Europa com as suas rainhas e reis, com a sua sobriedade e cultura. Ou pelo menos era assim em minha casa. A minha mãe sempre valorizou a maturidade como valor importante de uma pessoa, especialmente a de uma mulher.

Mais importante do que o surgimento de uma ruga ou ficar magra, para minha mãe era importante ser, ou parecer ser, culta e elegante. Da minha avó materna – que dentre outras coisas atuava no teatro Okinawense – herdei a preocupação com o impacto do conjunto visual e gestual. A ruga? Faz parte do charme, se há charme no todo.

Produto desse ambiente, ansiava por chegar aos 40 e quando cheguei, considerei os 42 anos o auge de minha vida – profissional, física, emocional, psíquica e espiritual. Os 50 chegaram sem a preocupação com esse tema, mas se fizeram sentir de forma mais marcante: para além do físico, fui invadida por um certo desânimo. Foi-se embora a pressa, a pressão, a ansiedade por chegar a algum lugar. O sonho de crescer, me destacar e dominar o mundo tinha ido embora com a mesma facilidade com que chegava num local na minha casa e não conseguia lembrar o motivo de ter ido até lá.

Reconheço que toda essa transformação teve sua origem muito mais na doença e morte da minha mãe do que na chegada à década de 50. Esse assunto ocupou todo o resto. Décadas de trabalho exaustivo para encontrar um lugar no mundo – tanto emocional como financeiro –, me levaram a um esgotamento quase total. A morte de minha mãe foi o ápice.

Foi um longo processo de transformação e reconstrução1. Longo e nada fácil. O meu trabalho de pesquisa mercadológica fazia cada vez menos sentido para mim. Não só pelo que significava para mim, ajudar a aumentar o consumo desmedido, mas também pelos rumos que a pesquisa estava tomando nas estratégias de negócios e de marketing dentro das empresas. Para quem viu nascer a primeira explosão de consumo vinda do Real e colaborar com as empresas a conhecer o brasileiro, não fazia muito sentido fazer as pesquisas que estavam sendo feitas.

O que eu queria para minha vida? Pergunta difícil de ser respondida porque passa primeiro por se saber quem se é, para depois ir na busca de descobrir quem se quer ser. Para mim sempre foi de dentro para fora. O externo é a expressão do interno e nunca ao contrário. Nos tempos de redes sociais fica mais difícil, mas toda geração tem suas pedras no caminho que parecem intransponíveis. A minha força, hoje entendo, veio do desejo genuíno de encontrar paz e felicidade. Aquela felicidade que vem da alma. Não é para ser mostrada – porque não é movida por um sentimento de revanche ou competição – mas sentida.

Também entendi com os anos que a felicidade, assim como a paz, não é um ponto fixo nem um ponto de chegada, mas um estado que exige cuidado e atenção permanente. Não dá para parar de se trabalhar nesse objetivo, embora se aprenda a voltar rapidamente ao ponto ideal. Agora chego aos 60, com tudo isso mais bem resolvido – porém nunca concluído. Obviamente sei mais do que eu não quero, do que quero – o que já é um grande avanço –, encontrei novos caminhos profissionais onde achei um maior sentido e utilidade ao meu labor; decidi voltar para a universidade e, após o mestrado no Brasil, faço doutorado em Lisboa. Ainda, após mais de 40 anos, voltei a migrar, embora, desta vez, não abri mão do local de onde parti: o Brasil, país que amo, que é maravilhoso – acho que o brasileiro vem se esquecendo disso ultimamente – e que me deu tanto.

Como nunca, ando me preocupando em ficar bem fisicamente. Como diria minha mãe: a juventude ajuda sempre a se focar em outras coisas, mas, com os anos chegando, cuidar da beleza física começa a ter real importância. Até a celebração dos meus 60 tem a força desse novo despertar. Decidi comemorar por fases e comecei pela música clássica – novo hobby na minha vida. Fomos visitar um dos mais antigos e reconhecidos festivais de música e arte clássica: o Salzburg Festival. Embora aprendiz, ouvir a Filarmônica de Viena e o coro de Viena, ambos sob a regência do reconhecidíssimo maestro venezuelano Gustavo Dudamel, foi de uma emoção difícil de descrever com palavras.

Além de a cidade ser linda, as pessoas serem muito amáveis, tem os Alpes. Algo que não foi planejado, mas eles estavam lá. Foi nas montanhas que me curei, me acalmei e me fortaleci. Fui lá fazer uma trilha pequena e simples. Meditei no meio das árvores centenárias, com a paisagem do filme da Noviça Rebelde ao meu redor e o amor de minha vida ao meu lado. E chorei e agradeci. Como evitar tanta emoção?

Pois é isso, minhas queridas e queridos: fazer sessenta anos é só o começo de um especial e novo tempo. Sem a pressa de chegar, sem a lentidão e desperdício de tempo de não se saber quem se é.

Há um ponto importante nessa minha história que preciso destacar: posso considerar que faço parte do grupo seleto de privilegiados que conseguiram chegar a essa faixa etária com recursos financeiros para poder diminuir o ritmo sem que isso parecesse preguiça, irresponsabilidade ou loucura. A grande maioria não tem essa possibilidade. Além disso, também preciso reconhecer, tive e tenho um companheiro que acolheu esse meu período com amorosidade – preocupado e às vezes desorientado, sem saber como agir – mas sempre protetor e cuidadoso.

  1. Há um ponto importante nessa minha história que preciso destacar: posso considerar que faço parte do grupo seleto de privilegiados que conseguiram chegar a essa faixa etária com recursos financeiros para poder diminuir o ritmo sem que isso parecesse preguiça, irresponsabilidade ou loucura. A grande maioria não tem essa possibilidade. Além disso, também preciso reconhecer, tive e tenho um companheiro que acolheu esse meu período com amorosidade – preocupado e às vezes desorientado, sem saber como agir – mas sempre protetor e cuidadoso.1 ↩︎

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